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Osteofitose: o que é o famoso “bico de papagaio” e como a fisioterapia pode ajudar?

há 6 minutos
6 min de leitura
bico de papagaio

Dor nas costas, rigidez e dificuldade para se movimentar são queixas que frequentemente levam uma pessoa a procurar um ortopedista ou um reumatologista. E, após exames de imagem, pode surgir no laudo uma palavra desconhecida: osteofitose.


Popularmente chamada de “bico de papagaio”, a osteofitose é uma formação de osteófitos, pequenas projeções ósseas que aparecem nas bordas dos ossos, principalmente próximas às articulações.


Embora sejam muito associados à coluna, os osteófitos também podem aparecer em outras articulações, como joelhos, quadris, mãos e ombros.


Mas encontrar um “bico de papagaio” em um exame significa necessariamente que ele é responsável pela dor? Não.

Esse é um dos pontos mais importantes para entender a osteofitose.


O que é osteofitose?


Os osteófitos são formações ósseas que surgem como parte de um processo de remodelação da articulação. Eles são frequentemente encontrados em pessoas com osteoartrite — popularmente conhecida como artrose — e alterações degenerativas da coluna.


Com o passar dos anos, estruturas como cartilagens e discos intervertebrais podem sofrer alterações. Diante das mudanças na distribuição das cargas e na mecânica da região, o organismo pode promover uma remodelação óssea nas bordas das articulações, favorecendo a formação dos osteófitos.


Por isso, sua presença se torna mais comum com o avanço da idade. O formato que essas projeções apresentam nas radiografias originou o nome popular “bico de papagaio”.


Osteofitose é comum?


Sim. Alterações degenerativas e osteófitos tornam-se progressivamente mais frequentes com o envelhecimento.

Um estudo brasileiro publicado na Revista de Medicina, da Universidade de São Paulo (USP), analisou exames das três regiões da coluna — cervical, torácica e lombar — e encontrou osteófitos em 26,9% dos laudos avaliados. (1)


No estudo, a região lombar apresentou a maior ocorrência. Entre as mulheres, foram encontrados osteófitos lombares em 17,9% dos exames avaliados, enquanto entre os homens o percentual foi de 13,7%. (1) Na região cervical, os índices foram de 15,4% nas mulheres e 5,7% nos homens; na região torácica, de 13,6% e 12,4%, respectivamente. (1)


Outro estudo, que avaliou especificamente a coluna cervical, demonstrou que a presença dos osteófitos também varia conforme o nível da coluna. A região entre as vértebras C5 e C6 apresentou a maior prevalência, chegando a 48,2% na população estudada. (2)


Esses dados reforçam uma característica importante: osteófitos são achados bastante comuns, especialmente à medida que envelhecemos.


Qual é o local do corpo mais atingido pelo bico de papagaio?


Os osteófitos podem surgir em diferentes articulações, especialmente naquelas submetidas a cargas e alterações degenerativas. Na coluna, podem aparecer nas regiões:


  • cervical;

  • torácica;

  • lombar.


No estudo brasileiro citado anteriormente, a coluna lombar foi a região mais acometida. Entretanto, não existe um único local que possa ser considerado universalmente o “mais atingido” em todo o corpo, porque a frequência depende da população estudada, da idade, da articulação avaliada e do método utilizado. Além da coluna, osteófitos são frequentemente associados à osteoartrite de articulações como joelhos, quadris e mãos.


Bico de papagaio sempre causa dor?


Não. Esse talvez seja o maior mito relacionado à osteofitose. Uma pessoa pode apresentar osteófitos em uma radiografia ou ressonância magnética e não sentir dor. Portanto, encontrar um osteófito no exame não significa automaticamente que ele seja a causa dos sintomas.


A avaliação precisa considerar o paciente como um todo: localização da dor, mobilidade, força muscular, capacidade funcional, histórico clínico e demais alterações presentes.


Em alguns casos, entretanto, dependendo do tamanho e principalmente da localização, os osteófitos podem contribuir para a redução do espaço disponível para estruturas próximas, incluindo raízes nervosas.


Nessas situações podem surgir sintomas como:


  • Dor: especialmente durante determinados movimentos ou atividades.

  • Rigidez: sensação de dificuldade ou limitação para movimentar a região.

  • Redução da mobilidade: alguns movimentos podem se tornar mais difíceis.

  • Formigamento ou alterações de sensibilidade: podem ocorrer quando há comprometimento de estruturas nervosas.

  • Fraqueza: merece avaliação profissional, principalmente quando aparece associada a sintomas neurológicos.


Por isso, o tratamento não deve ser definido apenas pelo que aparece no exame de imagem.


Osteofitose tem cura? É possível eliminar o bico de papagaio?


O osteófito é uma alteração óssea estrutural. Portanto, exercícios, alongamentos ou técnicas de fisioterapia não fazem o osteófito desaparecer.


Na maioria das situações, o tratamento visa controlar os sintomas, melhorar a mobilidade, recuperar a função e permitir que a pessoa mantenha uma vida ativa.


Esse conceito é especialmente importante porque alterações encontradas nos exames de imagem nem sempre apresentam relação direta com a intensidade da dor.


Como é feito o tratamento da osteofitose?


O tratamento depende da localização dos osteófitos, dos sintomas apresentados, da presença de artrose ou outras alterações associadas e, principalmente, do impacto funcional na vida do paciente. Quando a osteofitose está relacionada a alterações degenerativas e osteoartrite, as diretrizes atuais colocam o exercício terapêutico entre as principais estratégias de tratamento conservador.


O programa pode envolver fortalecimento muscular, exercícios de mobilidade, condicionamento aeróbico e atividades específicas para as necessidades de cada paciente. Medicamentos para controle da dor podem ser utilizados quando indicados pelo médico. Em algumas situações específicas podem ser consideradas infiltrações ou outros tratamentos.


A cirurgia fica reservada para casos selecionados, particularmente quando existe comprometimento importante das estruturas nervosas, deformidades, perda funcional relevante ou quando o tratamento conservador não consegue controlar adequadamente os sintomas.


Como a fisioterapia ajuda quem tem bico de papagaio?


A fisioterapia tem um papel importante porque trata a função e os sintomas do paciente. Após uma avaliação individualizada, o fisioterapeuta pode identificar limitações de movimento, perda de força, alterações de equilíbrio muscular, dificuldades funcionais e comportamentos que podem contribuir para a manutenção da dor.

Entre os objetivos do tratamento fisioterapêutico estão:


  • Reduzir a dor: diferentes estratégias podem ser utilizadas de acordo com o quadro clínico.

  • Melhorar a mobilidade: exercícios específicos ajudam a preservar ou recuperar movimentos importantes para as atividades diárias.

  • Fortalecer a musculatura: músculos mais preparados contribuem para a estabilidade, função e capacidade de lidar com as cargas do cotidiano.

  • Melhorar a postura e a mecânica dos movimentos: principalmente quando determinados padrões de movimento estão relacionados à piora dos sintomas.

  • Recuperar a capacidade funcional: sentar, levantar, caminhar, subir escadas, trabalhar e realizar atividades físicas podem voltar a ser feitos com mais segurança e confiança.

  • Evitar o ciclo de dor e inatividade: sentir dor pode levar algumas pessoas a diminuir progressivamente seus movimentos. Com o tempo, porém, o sedentarismo favorece perda de força, mobilidade e condicionamento, o que pode tornar as atividades ainda mais difíceis. Essa condição se chama cinesiofobia.


Conheça melhor a cinesiofobia no artigo abaixo:


Exercício faz mal para quem tem osteofitose?


Na maioria dos casos, não — e o movimento adequado pode fazer parte do tratamento. As recomendações do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) colocam o exercício terapêutico individualizado como um dos tratamentos centrais da osteoartrite. (3) (4)


Os exercícios podem incluir fortalecimento muscular, alongamentos e condicionamento aeróbico, de acordo com as necessidades e limitações individuais. Para isso, o Pilates é excelente. As diretrizes também destacam um aspecto interessante: no início de um programa de exercícios, algumas pessoas podem apresentar aumento temporário de desconforto. Isso não significa necessariamente que o exercício esteja provocando novas lesões.


Quando realizado de forma adequada e consistente, o exercício terapêutico pode contribuir para reduzir a dor e melhorar a função e a qualidade de vida a longo prazo.


Ter bico de papagaio significa que devo parar de me exercitar?


Não. Um dos erros mais comuns depois de receber um diagnóstico de osteofitose é desenvolver o medo de se movimentar e sentir dor, como falamos acima. Por outro lado, o movimento precisa ser adaptado à condição clínica, à intensidade dos sintomas, à idade, às limitações funcionais e aos objetivos de cada paciente.


Para algumas pessoas, serão necessários exercícios mais leves inicialmente. Para outras, programas progressivos de fortalecimento, Pilates Clínico, exercícios de mobilidade e condicionamento podem ser incorporados ao tratamento. O importante é que a atividade seja planejada de maneira individualizada.


O diagnóstico não deve significar medo do movimento


Receber um laudo com termos como “osteofitose”, “alterações degenerativas” ou “bico de papagaio” pode causar preocupação. Mas uma imagem não conta toda a história de um paciente.


Mais importante do que simplesmente identificar a presença de um osteófito é compreender como aquela pessoa se movimenta, quais são suas limitações, onde sente dor e o quanto os sintomas interferem em sua qualidade de vida.

A fisioterapia pode atuar justamente nesse processo: controlar sintomas, recuperar mobilidade, desenvolver força e devolver segurança para que o paciente continue se movimentando.


Envelhecer pode trazer mudanças para articulações e coluna. Mas, como o tratamento adequado é possível restaurar o movimento, a autonomia e a qualidade de vida.

 

Artigo com supervisão e orientação da fisioterapeuta Walkíria Brunetti CREFITO CREFITO 3 10441-F

Walkíria Brunetti é fisioterapeuta, formada pela PUC-Campinas, com mais de 37 anos de atuação na área de Fisioterapia. Possui Mestrado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Também atuou no Departamento de Fisioterapia Neurológica na Frei Universität de Berlin, na Alemanha. É especialista em Dores Crônicas, Saúde Postural, Pilates Clínico e Reabilitação.


A Clínica Walkíria Brunetti – Fisioterapia e Pilates está localizada no Campo Belo, zona sul da cidade de São Paulo.

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Referências científicas

  1. Zavanela PM, Riente R, Moreira V, Fernandes MR, Oliveira F. Incidência de osteófitos na coluna vertebral. Revista de Medicina. 2008;87(2):148-153.

  2. Ezra D, et al. Osteophytes in the Cervical Vertebral Bodies (C3-C7) — Demographical Perspectives. The Anatomical Record. 2019.

  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management. Guideline NG226. 2022.

  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Therapeutic exercise – Osteoarthritis in over 16s. Quality Standard QS87.

 

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