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Medo de sentir dor ao se movimentar tem nome: cinesiofobia

  • há 1 minuto
  • 7 min de leitura

Sentir dor pode fazer com que uma pessoa evite determinados movimentos. Quando esse comportamento se prolonga, porém, o medo pode se transformar em uma barreira para a recuperação. Entenda o que é cinesiofobia e por que recuperar a confiança no movimento é uma parte importante do tratamento da dor crônica.


Sentir dor e querer proteger o corpo é uma reação natural


Depois de uma crise de dor lombar, por exemplo, é comum evitar abaixar, carregar peso ou fazer determinados exercícios. Quem sentiu uma dor intensa no joelho pode começar a evitar escadas. Depois de uma lesão no ombro, levantar o braço pode gerar insegurança.


Em muitos casos, essa proteção é temporária. O problema começa quando a pessoa continua evitando movimentos mesmo depois que essa restrição já não é necessária. Aos poucos, ela pode passar a se movimentar cada vez menos por medo de sentir dor, piorar uma lesão ou se machucar novamente. Esse comportamento tem um nome: cinesiofobia.


O que é cinesiofobia?


Cinesiofobia é o medo excessivo do movimento ou da atividade física relacionado à expectativa de sentir dor ou sofrer uma nova lesão. É importante entender que esse medo é real para quem o sente. Uma pessoa que passou por episódios repetidos ou intensos de dor pode começar a interpretar determinados movimentos como uma ameaça.


Imagine alguém que teve uma crise intensa de dor nas costas ao se abaixar. Mesmo depois da fase mais aguda, pode permanecer a associação:


“Se eu me abaixar, minha coluna vai travar novamente.”


A partir daí, a pessoa passa a evitar aquele movimento. Depois evita pegar peso. Deixa de fazer exercícios. Caminha menos. Pode abandonar atividades que antes faziam parte da sua rotina. Sem perceber, o medo da dor começa a limitar sua vida.


O ciclo vicioso: sinto dor, então não me movimento


Existe um modelo bastante estudado na literatura científica chamado modelo de medo e evitação da dor (fear-avoidance model). De maneira simplificada, ele pode ser entendido assim:




Quando esse comportamento persiste, podem ocorrer perda de força e condicionamento físico, redução da mobilidade, piora do equilíbrio e maior dificuldade para realizar atividades cotidianas. A pessoa pode começar a perceber tarefas simples como cada vez mais difíceis. Levantar-se de uma cadeira, caminhar algumas quadras, subir escadas, carregar compras, brincar com os netos ou abaixar-se para pegar alguma coisa no chão podem se transformar em desafios.


A literatura também relaciona o medo da dor e a evitação persistente do movimento à incapacidade, desuso, hipervigilância, ansiedade e pior percepção da dor. Isso ajuda a explicar um aparente paradoxo:

"Tenho medo de me movimentar porque sinto dor. Mas movimentar-me cada vez menos pode dificultar minha recuperação".


Dor nem sempre significa que um movimento está causando uma nova lesão


Esse é um dos conceitos mais importantes para quem convive com dor persistente. Na dor aguda, proteger temporariamente uma região lesionada pode fazer parte da recuperação. Uma fratura, uma cirurgia recente ou determinadas lesões realmente exigem restrições específicas. Na dor crônica, a situação é diferente.


A dor é uma experiência complexa, influenciada não apenas pelos tecidos e estruturas do corpo, mas também pelo sistema nervoso, experiências anteriores, sono, estresse, condicionamento físico e fatores emocionais e comportamentais.


Por isso, sentir dor durante determinado movimento não significa automaticamente que aquele movimento esteja provocando uma nova lesão. Naturalmente, isso não significa ignorar a dor ou insistir indiscriminadamente em exercícios dolorosos.


O objetivo da reabilitação é entender por que aquela pessoa sente dor, quais movimentos são seguros e como recuperar progressivamente sua capacidade de realizá-los.


Dor crônica atinge milhões de brasileiros


A dimensão do problema é expressiva. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2023 analisou estudos populacionais brasileiros e estimou que 35,7% da população adulta brasileira convive com dor crônica.

Entre os idosos, a prevalência estimada chegou a 47,3%. Os pesquisadores também observaram que a dor era frequentemente descrita como moderada ou intensa e estava associada a índices elevados de incapacidade.

Os números mostram por que a dor crônica deve ser encarada não apenas como um sintoma, mas como uma condição capaz de interferir profundamente na autonomia, na atividade física e na qualidade de vida.


Medo do movimento também pode interferir no equilíbrio


Um estudo publicado em 2026 avaliou pessoas com instabilidade crônica do tornozelo e investigou a relação entre aspectos psicológicos e desempenho físico. Os pesquisadores avaliaram fatores como cinesiofobia, autoeficácia, saúde mental e equilíbrio dinâmico. Os resultados mostraram associação entre esses fatores e o desempenho em testes de equilíbrio, reforçando a importância de considerar não apenas os aspectos físicos de uma condição musculoesquelética, mas também a confiança e o medo relacionados ao movimento.


Embora o estudo tenha analisado especificamente pessoas com instabilidade crônica do tornozelo — portanto, seus resultados não devem ser automaticamente extrapolados para todas as condições dolorosas — ele reforça um conceito importante na reabilitação: recuperar a função também pode envolver recuperar a confiança para se movimentar.


Quanto menos a pessoa se movimenta, mais difícil pode ficar voltar a se movimentar

Imagine uma pessoa que deixa de caminhar porque sente dor no joelho. Nas primeiras semanas, ela reduz apenas as caminhadas mais longas. Depois começa a evitar escadas. Passa a sair menos de casa. Deixa de realizar exercícios.

Com o tempo, essa redução das atividades pode contribuir para perda de força muscular e condicionamento.


Quando tenta novamente subir uma escada, a tarefa realmente parece mais difícil. Isso pode confirmar uma crença que já existia:

“Está vendo? Meu joelho não aguenta.”


E o ciclo continua. É justamente por isso que um dos objetivos da fisioterapia é evitar que a dor resulte progressivamente em medo, inatividade e perda funcional.


O movimento pode fazer parte do tratamento da dor crônica

Durante muito tempo, repousar era uma recomendação comum para diversos problemas musculoesqueléticos.

Hoje sabemos que, em muitas condições de dor crônica, manter ou recuperar gradualmente o movimento é uma parte importante da reabilitação. Isso não significa simplesmente dizer ao paciente para “fazer exercícios”.


Quando existe dor e medo de se movimentar, o retorno precisa ser planejado e individualizado.

O paciente precisa voltar a experimentar movimentos seguros e perceber, progressivamente, que seu corpo é capaz de realizá-los. É uma reconstrução de capacidade física — e também de confiança.


Como a fisioterapia pode ajudar a quebrar o ciclo da dor e do medo?

O primeiro passo é uma avaliação individualizada. O fisioterapeuta avalia mobilidade, força, equilíbrio, postura, capacidade funcional e características da dor, além de identificar movimentos ou atividades que o paciente passou a evitar. A partir dessa avaliação, é possível estabelecer uma progressão segura de exercícios.


Em vez de simplesmente evitar tudo aquilo que provoca insegurança, por meio da fisioterapia alguns movimentos são retomados, de forma gradual e controlada, sempre, respeitando a condição clínica e os limites de cada pessoa. O objetivo não é obrigar o paciente a suportar dor e sim ajudá-lo a recuperar, progressivamente, mobilidade, força, função e segurança para se movimentar.


Pilates pode ajudar a recuperar a confiança no corpo

O Pilates Clínico, quando indicado e orientado pelo fisioterapeuta, permite trabalhar diferentes capacidades importantes para pessoas com dor persistente. Mobilidade, estabilidade, força, coordenação, equilíbrio e consciência corporal podem ser desenvolvidos de maneira progressiva.


Para uma pessoa que passou meses evitando determinados movimentos, essa progressão é especialmente importante. Movimentos inicialmente simples podem evoluir conforme o paciente ganha capacidade e confiança.


A percepção deixa gradualmente de ser:


“Tenho medo de fazer esse movimento.”


Para:

“Meu corpo consegue fazer esse movimento com segurança.”

 

Treino de força também é importante

Fortalecer o corpo é outro componente importante da reabilitação. Músculos mais preparados ajudam o organismo a lidar com as demandas do cotidiano: levantar-se, caminhar, carregar objetos, subir escadas e realizar atividades profissionais ou de lazer.


O treinamento de força também permite que a pessoa perceba sua própria evolução. Um exercício que parecia impossível passa a ser realizado. Depois recebe mais resistência. Uma tarefa cotidiana que exigia esforço começa a ficar mais fácil. Essa evolução ajuda a recuperar não apenas a capacidade muscular, mas também a autoeficácia — a confiança da pessoa na própria capacidade de realizar determinada atividade.


Movimento é autonomia


Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes quando falamos em dor crônica: o objetivo do tratamento não deve ser apenas reduzir a dor. Deve ser devolver função e qualidade de vida.

  • Voltar a caminhar.

  • Subir uma escada.

  • Abaixar-se.

  • Carregar uma sacola.

  • Viajar.

  • Praticar uma atividade física.

  • Brincar com os filhos ou netos.

  • Retomar atividades que foram abandonadas por medo.


Em muitos casos, recuperar esses movimentos significa recuperar uma parte importante da própria autonomia.

Por isso, quando o medo da dor começa a limitar progressivamente a vida, a solução nem sempre está em se movimentar menos.


Com avaliação adequada, orientação profissional e progressão individualizada, o movimento pode deixar de ser visto como uma ameaça e voltar a ser parte do caminho para uma vida mais ativa, funcional e independente.


Artigo com supervisão e orientação da fisioterapeuta Walkíria Brunetti CREFITO CREFITO 3 10441-F


Sobre Walkíria Brunetti


Walkíria Brunetti é fisioterapeuta, formada pela PUC-Campinas, com mais de 40 anos de atuação na área de Fisioterapia. Possui Mestrado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Também atuou no Departamento de Fisioterapia Neurológica na Frei Universität de Berlin, na Alemanha. É especialista em Dores Crônicas, Saúde Postural, Pilates Clínico e Reabilitação.


A Clínica Walkíria Brunetti – Fisioterapia e Pilates está localizada no Campo Belo, zona sul da cidade de São Paulo.


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Referências

  1. Santiago BVM et al. Prevalence of chronic pain in Brazil: A systematic review and meta-analysis. Clinics. 2023;78:100209.

  2. Gatchel RJ et al. Fear-Avoidance Beliefs and Chronic Pain. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2016;46(2):38-43.

  3. Abordagem terapêutica do medo relacionado à dor e da evitação em adultos com dor musculoesquelética crônica: revisão integrativa e roteiro para o clínico. BrJP. 2022;5(1).

  4. Mental Health Predictors of Dynamic Balance in Individuals With Chronic Ankle Instability. PMID: 41913085. 2026.

 

 
 
 

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